Ler um livro é algo que me dá
sempre muito prazer, se o livro for bom, para além do prazer que me dá, ainda
me transporta para o seu mundo como se eu própria fosse personagem vivendo em
tempo real as aventuras, desventuras, paixões, desilusões, frustrações,
vitórias, medos e alegrias descritas. Mas se um livro for muito bom e lido na
língua original em que foi escrito então o prazer imenso funde-se com o orgulho.
Foram estes sentimentos que o livro “A Célula Adormecida” de Nuno Nepomuceno me
proporcionou.

“A Célula Adormecida” fala de
política, de religião, de traição, de ódio e de amor, com muito amor, com muita
humanidade. Curiosamente não senti qualquer raiva ou ódio pelos personagens com
personalidades mais irritantes ou executantes de atos condenáveis, tal o amor e
compaixão que o autor lhes/nos transmite. E o livro é isso mesmo, uma lição de
amor, apesar de o ódio ser um sentimento constante ao longo de toda a
narrativa.
A par de ler o livro na sua
língua original, o português, o que considero sempre uma mais-valia, outra
caraterística que me fez sentir mais próxima e dentro do livro foi o facto da
ação se dividir entre a cosmopolita Istambul e a minha amada e saudosa Lisboa,
nos seus percursos pela cidade.
Sendo um livro de ficção
relata-nos factos e situações reais, o que torna toda a história muito mais
emocionante e nos faz pensar profundamente na possibilidade da ficção se tornar
realidade. Por outro lado, é uma obra que nos conduz à realidade de uma
comunidade cada vez maior na/da nossa sociedade.
Esta obra fez-me recordar quando
há mais de 25 anos fiz para a faculdade um trabalho de grupo sobre a mesquita
de Lisboa. De uma forma muito mais distante e ligeira também nessa altura
tivemos de perceber a cultura, a religião e a arquitetura islâmica para então
compreender e caracterizar o edifício da mesquita. Mas o que recordo com mais
carinho, o mesmo carinho que senti no livro, foi a simpatia e abertura com que
fomos recebidos na mesquita. Apesar de sermos 1 rapaz e 3 raparigas de 20 anos,
nunca senti qualquer pudor ou preconceito. O responsável que nos recebeu
mostrou-se sempre muito prestável e até divertido, contando-nos histórias e
curiosidades sobre o projeto e a construção da mesquita e permitiu-nos uma
visita aos vários espaços do edifício, com exceção da sala de orações
exclusivamente destinada a homens, onde apenas ao nosso colega rapaz foi
permitido entrar… Como “castigo” pelo privilégio, por maioria (feminina) foi
decidido que seria ele a apresentar oralmente essa parte do trabalho.
Por todas estas e muitas mais
razões, que decerto encontrarão, “A Célula Adormecida” de Nuno Nepomuceno é um
livro que recomento vivamente.

Texto: Margarida Veríssimo
Sem comentários:
Enviar um comentário